03/11/2026
Quem define o preço dos títulos que financiam o agro e o mercado imobiliário?
São Paulo, 03 de novembro de 2026 – Quando um investidor compra ou vende uma ação, encontra na tela o preço formado pelas ofertas de diferentes participantes. No mercado de crédito privado, o processo é diferente. Títulos como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) nem sempre são negociados diariamente, embora estejam associados ao financiamento de dois setores fundamentais da economia brasileira.
Essa característica traz uma pergunta essencial para bancos, corretoras e gestoras: quanto vale hoje um título que pode ter sido emitido há anos, possuir um fluxo particular de pagamentos e não ter registrado uma negociação recente?
A resposta exige considerar fatores como taxa de juros, indexador, prazo, amortizações, pagamentos futuros e condições do ativo. Uma diferença no modelo de cálculo pode fazer com que comprador e vendedor partam de preços distintos para o mesmo papel, aumentando o tempo necessário para concluir uma operação.
Neste cenário, a B3 ampliou a cobertura da CALC, calculadora de renda fixa da companhia, para 730 ativos de CRA e 950 ativos de CRI. Esses ativos correspondem a 95% dos negócios de CRA e a 83% dos negócios de CRI realizados no Trademate, plataforma eletrônica de renda fixa da B3.
A ampliação coloca à disposição dos participantes referências para transformar a taxa negociada em preço unitário, o chamado PU, considerando as características e os fluxos de cada título.
“Em crédito privado, combinar uma taxa é apenas parte do processo. É necessário que as duas instituições consigam chegar ao preço correspondente àquela taxa, considerando todas as características do ativo. Ao oferecer uma referência de cálculo construída a partir dos dados e dos eventos dos títulos, a B3 reduz uma fricção operacional importante e dá mais eficiência para a negociação”, afirma Fernando Bianchini, superintendente de produtos de Renda Fixa da B3.
Um mercado de mais de R$ 400 bilhões
O desafio ganha dimensão diante do tamanho alcançado pelo mercado. Em agosto de 2026, o estoque registrado na infraestrutura da B3 somava R$ 175 bilhões em CRA e R$ 274 bilhões em CRI, totalizando aproximadamente R$ 436,3 bilhões. São 1.350 instrumentos de CRA e 5.380 instrumentos de CRI na base da companhia.
Os números mostram um universo amplo e diverso. Dois CRAs ou CRIs podem ter indexadores, vencimentos, amortizações, estruturas de fluxo e condições de remuneração diferentes, exigindo cálculos específicos para cada ativo.
Ao longo da vida do título, mudanças nas taxas de juros, repactuações do papel e condições de mercado alteram seu valor de negociação.
Da taxa ao preço
Nas negociações de renda fixa, é comum que as instituições discutam a operação em taxa. Para efetivar a compra e a venda, no entanto, essa taxa precisa ser convertida no preço unitário do título.
É nesse momento que surge uma das principais dores do mercado. Sem uma ferramenta preparada para interpretar as características de cada ativo, as instituições precisam desenvolver, alimentar e revisar modelos próprios.
A CALC, da B3, permite realizar cálculos de conversão de taxa em preço-unitário (o quanto o investir irá pagar por uma unidade do ativo) ou conversão de preço-unitário em taxa, projetar fluxos de caixa, consultar o valor nominal atualizado, calcular duration e simular preços de liquidação.
Na prática, o participante pode inserir a taxa negociada e obter o preço correspondente, considerando o fluxo financeiro e as informações do papel. Isso permite preservar a dinâmica do mercado, que negocia em taxa, sem perder a referência de preço necessária para concluir e processar a operação.
Menos dependência de modelos próprios
O diferencial está em oferecer uma base de cálculo comum. Com ela, as instituições podem conferir o preço correspondente à taxa negociada, comparar resultados e reduzir a dependência de calculadoras próprias para centenas de ativos.
A referência também pode facilitar a entrada de novas instituições na negociação de CRA e CRI. Sem uma estrutura desse tipo, uma instituição interessada nesses mercados precisaria desenvolver e manter internamente modelos capazes de acompanhar eventos financeiros, amortizações, atualizações de valor e particularidades de cada emissão.
“A referência de cálculo não substitui o processo de formação de preços nem a avaliação de risco feita por cada instituição. Ela resolve uma etapa anterior e essencial: garantir que, ao negociar determinada taxa, as partes tenham uma forma consistente de chegar ao PU correspondente”, explica Bianchini.
Uma agenda mais ampla para o crédito privado
A ampliação da CALC integra a agenda de modernização do mercado secundário de renda fixa da B3.
Desde outubro de 2024, o Trademate oferece negociação eletrônica de títulos privados, como CRA, CRI, debêntures e cotas de fundos fechados, reunindo funcionalidades como livro de ofertas, RFQ e ambientes privados de negociação.
A CALC complementa essa evolução ao facilitar a conversão de taxas em preços, trazendo mais eficiência e padronização aos cálculos.
Assim, a B3 conecta diferentes etapas da jornada do crédito privado: registro e depósito dos títulos, negociação eletrônica e referências de cálculo para o mercado.
Números em destaque
Estoque aproximado de CRA e CRI registrado na B3 em agosto de 2026.
Ativos contemplados pela cobertura informada da CALC.
Participação desses ativos nos negócios de CRA realizados no Trademate.
Ativos contemplados pela cobertura informada da CALC.
Participação desses ativos nos negócios de CRI realizados no Trademate.
Quantidade total de instrumentos de CRA e CRI registrada na base da B3 em agosto de 2026.
Como funciona um CRA ou CRI?
Empresas e produtores possuem recebíveis ou necessidades de financiamento relacionados ao agronegócio ou ao setor imobiliário.
Esses créditos podem servir de lastro para uma operação de securitização.
A securitizadora emite CRA ou CRI para captar recursos junto aos investidores.
Depois da emissão, os títulos podem ser negociados no mercado secundário.
O preço pode variar conforme prazo, taxa de juros, risco, liquidez e condições de mercado.
Para concluir a negociação, a taxa combinada precisa ser convertida no preço unitário correspondente ao fluxo do título.